Nossa proposta é tirar a poeira de nossas Bíblias que por vezes ficam esquecidas em um canto da estante, ou como “amuleto” aberta em capítulo específico pegando poeira num pedestal, ou ainda sendo aberta somente aos domingos durante o culto. Almejamos através da pesquisa dos conteúdos milenares desse livro ajudar a transformar nossas vidas em vida de verdade, retirando-a do pedestal do homem para nos colocar aos pés do Senhor, nutrindo-nos do amor de Deus.

quarta-feira, 20 de junho de 2012

A Região em Atos 9: 1-22 - Parte III


Continuamos nosso estudo no livro de Atos, mais precisamente na perícope que narra conversão do apóstolo Paulo. Neste tópico veremos como se delineava a geografia da época.


A região nos tempos de Paulo – Continuando o estudo em Atos 9: 1-22


O império romano sucedeu os selêucidas no papel de grande potência regional, concedendo ao rei Hasmoneus Hircano II autoridade limitada, sob o controle do governador romano sediado em Damasco[1]. Após uma última tentativa de retomada do poder por parte de Matatias Antígono, o governo dos Hasmoneus (40 AEC) foi finalmente deposto e Israel tornou-se província de Roma.
Em 37 AEC Herodes, genro de Hircano II, foi nomeado pelos romanos, rei da Judéia, sendo concedida ao mesmo, autonomia quase que ilimitada sobre os assuntos internos do país, tornando-se um dos mais poderosos monarcas da região oriental do Império Romano.
Dez anos após sua morte (4.AEC) a Judéia caiu sobre administração direta romana e César Augusto dividiu o reino entre os filhos do antigo rei.
Na perícope aqui estudada, a Palestina estava dividida entre os herdeiros de Herodes, como mostra a tabela 1.


 Tabela 1 – Dinastia Herodiana

              
Podemos situar o ambiente histórico-geográfico como greco-romano sob a cultura helenística[2] adotada por Roma e repassada aos dominados. O império romano de então era muito extenso, totalizando os povos dominados aproximadamente uns 50 milhões de habitantes. Como se observa no Mapa 1[3].
Devemos notar também como era a Palestina no referido período. Como explicita o Mapa 2.


Mapa 1 – Domínio Romano  (63 AEC – 135 EC)



       

Mapa 2 – Palestina




Através da observação dos mapas podemos notar que o território da Palestina possuía extensão mediana (cerca de 34 mil quilômetros), dividindo-se em pequenas áreas: ao noroeste as cidades da Judéia, Samaria e Galiléia; ao norte Ituréia; ao sul Induméia e ao leste Traconidete.
Todo território era banhado pelo mar Mediterrâneo no extremo oeste; ao leste estava o rio Jordão que desembocava no Mar Morto (ao Sul). Toda a Palestina era entrecortada por montanhas e montes com 600 m de altura, dos quais os mais altos encontravam-se na Galiléia e em Hermon.
O solo também possuía características peculiares, pois alguns lugares eram completamente áridos, somente sendo possível a pecuária com a criação de carneiros, enquanto que outras regiões possuíam solo fértil possibilitando assim o plantio de várias espécies de plantas.
É nessa pluralidade de características geográficas: vales, montanhas, desertos, depressões e áreas férteis que se ambienta a Palestina aqui estudada.







[1] Por isso Saulo de Tarso dirige-se para Damasco a fim de pedir carta ao Sumo Sacerdote com o propósito de prender os seguidos de Cristo. Esta era uma cidade de grande importância política em 34 EC.

[2] O helenismo foi a concretização de um ideal de Alexandre: o de levar e difundir a cultura grega aos territórios que conquistava. Foi neste período que as ciências particulares têm seu primeiro e grande desenvolvimento. Foi o tempo de Euclides e Arquimedes. O helenismo marcou um período de transição para o domínio e apogeu de Roma.
[3]Os mapas estão ambientados no tempo de Jesus. Entretanto, como a morte do messias se deu em 30 EC e a conversão de Paulo em 34 EC, sendo dessa forma datas muito próximas tomamos por liberdade utilizar tais mapas para ilustrar a geografia da época.

terça-feira, 19 de junho de 2012

Atos 9: 1-22 – parte II


Continuando o estudo da perícope de Atos 9: 1-22, veremos hoje a sociedade nos tempos de Paulo. No próximo tópico de nossa pesquisa daremos enfoque na região de então. Assim, ao término do ensaio teremos uma abordagem histórico-social no livro de Atos.


Capítulo 2 – A sociedade de Israel nos tempos de Paulo


A sociedade nos tempos de Paulo era constituída por um misto de culturas, religiões e convicções políticas, ora mantidas dos costumes judaicos, ora oriundas de Roma.

Não se pode dessa forma desmembrar os grupos que compunham Israel no século I sem adentrar ao campo da política uma vez que tudo para esta sociedade apresentava cunho político.

Segundo a óptica de Robert GUNDRY, em seu livro, Panorama do Novo Testamento, p. 23 e 29 pode-se vislumbrar um pouco melhor a sociedade de então:

“4 milhões de judeus viviam sob o domínio deste vasto Império, o que representava ± 7% da população total do mundo romano [...]. Havia portanto um grande número de habitantes judeus naquela época, dos quais a sua grande maioria, principalmente na região da Palestina, era pobre e em geral alguns eram lavradores e outros porém viviam do comércio e da pesca.
A escravidão entre os judeus não era uma prática muito grande pois a maioria dos judeus palestinos eram tidos como cidadãos livres. Na sociedade judaica não havia muitos desníveis sociais por causa da influência niveladora do judaísmo”[...].



Logo, certa hegemonia era dada aos judeus e assim os sumos sacerdotes permaneciam no poder ajudando o governador romano. Além disso, como acima supracitado, existiam outros grupos presentes na sociedade da época.

Constituía também importância fundamental para sociedade o sinédrio, as sinagogas e o templo.

Desta forma, os grupos que compunham Israel nos tempos de Paulo eram formados por: zelotes, herodianos, centuriões e publicanos, escribas, saduceus, fariseus, samaritanos e os seguidores de Jesus.

2.1 – Zelotes

Este grupo originou-se a partir dos fariseus, contudo seu cunho era mais político que religioso. Era composto em sua maioria por pequenos camponeses e pessoas oriundas das camadas mais baixas da sociedade que se viam massacradas pelo fisco.

Ansiavam destituir Roma do poder e eram contrários ao governo de Herodes na Galiléia. Religiosos e nacionalistas ao extremo almejavam instituir a monarquia a YHVH, retomando assim o messianimo do êxodo.

2.2 – Herodianos

Embora não pudessem ser chamados de um grupo social propriamente dito, eles representavam a dependência dos judeus aos romanos, uma vez que possuíam o poder da Galiléia nas mãos. Por caberem a tais a incumbência de capturar agitadores eram considerados os principais opositores dos zelotes. (Mt. 22.16; Mc. 3:6; Mc.12:13)

2.3 – Centuriões e Publicanos

Os centuriões representavam o poder militar da época. A serviço de Roma comandavam 100 soldados.
Embora a figura dos publicanos também representasse o poder romano outorgado, sua incumbência estava no âmbito de recolher impostos e, por tal motivo essa classe era odiada pelos judeus. (Mt. 9:9; Mc. 2:14; Lc. 5:27).

2.4 – Escribas                

Também conhecidos como doutores da lei, este grupo possuía grande prestígio junto à sociedade da época.
Por serem interpretes das escrituras (copistas) dominavam amplo campo do saber (administração, direito e educação) influenciando assim a escola, o sinédrio e as sinagogas.
Devido ao “poder” político que possuíam, embora não fossem economicamente os mais abastados, tornam-se guias espirituais do povo, determinando, até mesmo, regras para dirigir o culto. 

2.5 – Saduceus

Grupo imponente formado pelos grandes proprietários de terras (anciãos) e pelos membros da elite sacerdotal. Eram os responsáveis pelo controle do Sinédrio, ou seja, detinham o poder nas mãos, e para tal tornaram-se os maiores colaboradores do império romano, fazendo uma política de conciliação temendo perder seus cargos e privilégios. No âmbito da religião mantinham uma postura conservadora aceitando somente a lei escrita.

 2.6 –  Fariseus

Tratava-se da seita mais segura da religião judaica (At. 26:5), criada no período anterior a guerra dos Macabeus, com o propósito de oferecer resistência ao espírito helênico que havia se instaurado entre os judeus.
Sustentavam a doutrina da predestinação que consideravam em harmonia com o livre arbítrio. Acreditavam na imortalidade da alma, na ressurreição do corpo e na imortalidade do espírito; criam nas recompensas e castigos da vida futura de acordo com os atos cometidos em vida.
Contudo, tais aspectos não representavam a essência da doutrina e sim viver em conformidade com a lei, indiferente de sua consequência. Por exemplo, para eles, guardar o sábado (dia do Senhor) era algo extremamente importante não podendo nem ao menos retirar um inseto pousado sobre a roupa, por ser isto considerado trabalho, e no dia santo era inconcebível trabalhar.
Embora buscassem primeiramente as cousas divinas, passaram a amar mais a lei do que a Deus. Saulo de Tarso, homem do qual este ensaio trata, pertencia a esta seita, contudo, mostrou-se homem reto e temente a Deus, posteriormente.

2.7. – Samaritanos

Embora não pertencessem ao judaísmo propriamente dito, era um grupo característico da região palestinence. Observavam escrupulosamente o Pentateuco. Frequentavam o Templo de Jerusalém, mas, não aceitavam os outros escritos do Antigo Testamento.

Por possuírem miscigenação com estrangeiros, eram considerados pelos judeus como raça impura e motivo de contenda dos fariseus para com os novos Cristãos, pois estes admitiam aos oriundos de Samaria os mesmo privilégios perante a nova doutrina. (Lc. 10: 29-37; 17: 16-18; Jo. 4: 1-42).

 2.8– Os Seguidores de Jesus

Após a ascensão de Cristo (30 AEC) crescia em números os seus seguidores. Diz a Bíblia que três mil homens foram batizados no dia de pentecostes.
Tal grupo, também conhecido com “seita do Caminho”, possuía tudo em comum (At. 2:42-47), vendiam suas propriedades e bens e distribuíam igualmente entre os menos abastados, não havendo assim, nenhum necessitado entre eles.
Perseveravam na doutrina dos apóstolos, na comunhão e nas orações. Em atos 4:4 diz que o número de convertidos chegou a quase 5 mil homens. Contudo Rodney Stark contesta e explica tais números em seu livro Crescimento do Cristianismo:


Para um número inicial, At.1,14-15 sugere que, vários meses após a cruxificação, havia 120 cristãos. Mais adiante, em At.4-4, menciona-se um total de 5 mil adeptos.

E, segundo At. 21,20, por volta da década de 60, havia “milhares de judeus” em Jerusalém que abraçaram então a fé.

Não se trata de estatísticas. É que houvera muitas conversões em Jerusalém, que deve ter sido a primeira cidade cristã, já que ali provavelmente havia não mais de 20 mil habitantes na época – J.C. Russel (1958) estima apenas 10 mil. Como observa Hans Conzelmann, esses números pretendem apenas “mostrar quão prodigiosamente o Senhor mesmo está agindo aqui” (1973:63). Com efeito, como nota Robert M. Grant, “sempre se deve levar em consideração que os números da antiguidade [...] são parte de um exercício de retórica”  (1977:7-8) e não devem, efetivamente, ser tomados em termos literais.

[...] Até meados do século III, Orígenes admitia que os cristãos constituíssem tão-somente “uma pequena parcela” da população. No entanto seis décadas depois os cristãos eram tão numerosos que Constantino julgou conveniente aderir à Igreja.


Assim sendo, tomando por base o que diz Rodney pode-se considerar que no ano 34 EC o número de seguidores de Cristo somavam pouco menos de 1000 adeptos. Contudo,  tal fato, não deixa de ser considerado espantoso devido à opressão desses, sofrida por parte dos governantes e dos fariseus da época.

Esta é a sociedade que permeia a perícope de Atos 9: 1-22. No próximo tópico veremos como era a região em que tais grupos conviviam.

segunda-feira, 18 de junho de 2012

Uma abordagem de Atos 9: 1-22 - O perseguidor é perseguido.




 

Uma abordagem de Atos 9: 1-22

 

O presente estudo tem por base o texto bíblico de Atos 9:1-22; e trata da conversão de Paulo no caminho para Damasco. Tal fato se deu no século I EC[1] sob o domínio helenístico-romano. Embora não haja consenso na pesquisa sobre a exatidão do ano que se deu o referido evento (ficando entre os anos 33 e 34[2]), tomaremos por base a cronologia clássica Bíblica, ambientando assim o texto no ano 34 EC.

Como principais acontecimentos do período, temos o Pentecostes com a descida do Espírito Santo, o início do movimento da Igreja primitiva na Palestina sob o comando de Pedro e o martírio de Estevão por apedrejamento com a perseguição aos seguidores de Cristo por parte da política de então.  Contudo, tais questões serão vistas posteriormente com maior pertinência, a saber: política, religião, economia e sociedade nos tópicos subsequentes.

Por se tratar de longa pesquisa, dividiremos em capítulos para a postagem no site. Que este estudo possa enriquecer grandemente sua vida!

Em Cristo,

Renata.



Capítulo 1 – Contexto Histórico-Social

Para compreendermos o contexto histórico no livro de Atos é necessário situarmos a linha cronológica um pouco antes de tal período, viajando pela história até o início da conquista romana.

Roma em 63 AEC chegou ao Oriente médio, começando assim as invasões partas e árabes no século VII. Através de tais conquistas a Palestina passou a fazer parte do Império Romano. Posteriormente Herodes (40-4 AEC) obteve de Roma o título de rei. E sob a dinastia Herodiana, por volta do ano 6 AEC, Jesus nasceu.

            Ao morrer Herodes, seu reino foi dividido em três e o mesmo confiado aos filhos, sendo a Galiléia e a Peréia entregue ao comando de Herodes Antipas (4 AEC – 39 EC), enquanto Arquelau, reina sobre a Judéia,  Samaria e Iduméia, contudo, devido ao ódio atribuído a este por parte dos judeus, o mesmo foi exilado em Gálias e substituído por procuradores romanos, dentre os quais, Pôncio Pilatos (26-36 EC). Restando a Felipe as demais cidades do reino.                                  

A sociedade da época estava dividida em zelotes2 , herodianos, centuriões, publicanos, escribas, saduceus, fariseus, samaritanos e um novo grupo que começava a ser formar: os seguidores de Cristo.

Após a morte de Cristo (30 EC), os apóstolos começaram a anunciar a ressurreição e posteriormente no Pentecostes (33 EC) o movimento dos seguidores de Jesus verdadeiramente começou a tomar vulto.

Nossa pesquisa (atos 9:1-22) ambienta-se exatamente no final desse período, em que Paulo começa a perseguir os da “nova seita” e após um encontro com Jesus passa de opressor a perseguido.

Durante muitos anos o evangelho existiu quase que exclusivamente sob a forma oral. Os apóstolos narravam os acontecimentos da vida de Jesus ao povo e desses sermões posteriormente veia a surgir o texto escrito. Contudo, quanto às palavras de Jesus, estas foram transmitidas no ensino catequético da Igreja Primitiva.


1.1 - Entendendo a perícope de Atos 9: 1-22    

O referido capítulo retrata a conversão de um grande personagem bíblico que posteriormente viria a ser um dos maiores missionários do evangelho. A saber, Paulo  assim chamado pelo autor do texto.

O nome judaico do mesmo antes de sua conversão era Saulo: Em hebraico Shaul, em grego Saulos; assim como se encontra no texto bíblico supracitado.

É provável que o mesmo utilizasse os dois nomes, como era costume dos judeus oriundos da dispersão.

Nascido em Tarso, região principal da Cilícia, pertencia à tribo de Benjamim Fp. 3:5. Contudo, não se sabe com exatidão como sua família foi residir ali. Uma antiga tradição afirma que o mesmo havia sido levado de Giscala em Galiléia pelos romanos, depois que tais tomaram este último lugar. É possível que a família de Paulo tenha fixado lugar em Tarso com algumas das colônias dos reis da Síria que se estabeleceram ali. Ou ainda que tenham migrado voluntariamente por cunho comercial.

Por ser Tarso, o centro intelectual do oriente, onde existia uma escola famosa e predominava a filosofia estóica, é provável que Paulo crescesse ali sobre tais influências e que seus pais sendo fiéis as leis mosaicas o tenham enviado à Jerusalém para ser educado dentro dos costumes. Logo, ele possuía por língua materna o grego, mas posteriormente teria aprendido o aramaico.  Como o mesmo diz At. 22:3, foi educado em Jerusalém, ainda muito jovem, sendo seu preceptor um dos mais sábios e notáveis rabinos daquela época: o “grande Gamaliel” (At. 5:34-39).

Sob seus ensinamentos o futuro apóstolo tornou-se um fariseu zeloso e disciplinado nas ideias religiosas e intelectuais de seu povo.

Paulo, ao que parece, possuía relações familiares de alto grau e de grande influência, pois em Rm 16:7:11, manda saudar três pessoas, seus parentes, que se haviam assinalado cristãos  primeiro que ele. A epístola aos Filipenses 3:4-7 dá a menção de que ele ocupava posição de grande influência o que lhe dava margens a conseguir grandes lucros e honras.

Talvez tenha sido através dessas relações familiares que o mesmo veio a ocupar posição de destaque na cultura judaica.

Apesar de possuir educação e doutrina na fé hebraica e de ter por pai um fariseu (At. 23-6) o mesmo era cidadão romano. Entretanto, ignora-se o meio pelo qual tenha alcançado tal privilégio.

Aparece pela primeira vez no livro de Atos, na execução de Estevão, o protomártir do Cristianismo.

Não é errado, portanto dizer que o ódio de Paulo contra os da nova seita já estava aceso, pois não só desprezava o Messias crucificado como também considerava perigosos os seus seguidores tanto no tangente a religião como no que diz respeito ao Estado.

Logo após a morte de Estevão, começou a dirigir a perseguição aos cristãos (At. 8:2-3; 22:4; 26:10-11; I Co. 15 –9) e o fazia guiado por uma consciência mal informada. Não satisfeito com a opreessão devastadora feita em Jerusalém, pede carta ao príncipe dos sacerdotes para as sinagogas de Damasco com o firme propósito de levá-los cativos tantos quantos dessa seita fossem achados pelo caminho.

Os romanos por sua vez davam largos poderes aos judeus para exercerem sua administração interna. Assim, o governador de Damasco que obedecia ao rei Aretas (9:23,24; 2 Co. 11:32), era particularmente favorável aos judeus, favorecendo assim a perseguição de Paulo aos Cristãos.

O fariseu então seguiu com seus companheiros, provavelmente a cavalo, como era de costume nas viagens pelos caminhos desertos da Galiléia para a antiga cidade.

No caminho, ao meio-dia e nas proximidades da cidade dá-se a conversão deste, como descrito no referido capítulo (At. 9:1 –22) e Paulo, em nome de Cristo Jesus passa a ser perseguido.

O presente ensaio toma por base o texto da conversão do apóstolo e o posiciona cronologicamente no tempo da narrativa (ou tempo ocorrido do fato) e no tempo da escrita (tempo do desenvolvimento do texto escrito).

Sabendo-se que o evento ocorreu em 34 EC, esmiuçaremos cada tópico pertinente às cronologias pretendidas neste estudo.


No próximo capítulo veremos a sociedade de Israel no tempo do evento. Shalom!



[1] EC – Era comum, ou Era Cristã ao lugar de d.C.
[2] Existem três fontes de pesquisas, feitas neste artigo, para a cronologia da conversão de Paulo. A cronologia de Jerome Murphy O’Connor ambienta a conversão no ano 34 EC; Já na pesquisa realizada por J. Roloff atesta o ano de 33 EC; e por fim a cronologia clássica bíblica fixa o ano do encontro de Paulo com Cristo em 34 EC.

sexta-feira, 15 de junho de 2012

O Método Comparativo Parte II - Aplicação do método


Como anteriormente dito, segue a aplicação do método comparativo, ou o que chamamos em português de intertextualidade. Queremos deixar claro que nossa intenção no presente estudo não é a de defender esta ou aquela teoria sobre o fim dos tempos, pois a exegese nada afirma, apenas expõe as possibilidades. Desta forma, exporemos simplesmente como os textos se comunicam, sem nenhuma intenção homilética.

Boa consulta!







De Rei para reis: uma visão dos tempos vindouros


Em Daniel capítulo 2, versículos 1-3; 5-6; 10, 12; 14-20; 23-47 temos a  interpretação do sonho de Nabucodonosor sobre coisas que hão de acontecer, ou seja, a volta de Cristo.
O primeiro aspecto a ser destacado é o que Daniel chama de últimos dias ou dias futuros e que em apocalipse 16: 14-16 vislumbra-se como O grande dia do Deus Todo-Poderoso. Fato este que acontecerá através de uma peleja e em um local já anunciado, como destaca o versículo 16: Então, os ajuntaram no lugar que em hebraico se chama Armagedom.

Este local encontra-se no Vale de Megido e já foi palco de muitas guerras sanguinolentas (2 Rs. 9.27, 2 Rs. 23.29, Zc. 12.11).
Também mencionado como “vale da decisão" (segundo Joel 3:14), ou "vale de Jeosafá" (Joel 3:2), encontra-se estrategicamente posicionado em um local onde durante mais de quatro mil anos aconteceram diversas batalhas decisivas na história do antigo Israel. Local este, composto por um grande descampado, tendo seu valor militar reconhecido até mesmo por Napoleão Bonaparte (grande estrategista na arte militar como se sabe) e assim sendo, perfeito para a Guerra Santa e o juízo de Deus, o Sagrado versus o profano.

O segundo aspecto do sonho de Nabucodonosor foi uma estátua grandiosa e de terrível aspecto. Assim como muitos reinados já existentes, grandiosos no poder e terríveis na opressão ao povo.
Vislumbrar-se-á mais profundamente cada um desses reinos a partir das divisões corporais presentes no próprio sonho.

  • A cabeça feita de ouro puro – diz respeito a um reino muito próspero, visto que  ouro na antiguidade sempre fora arquétipo de grande riqueza. Também podemos considerar o mesmo com muitas habilidades intelectuais, representado no sonho pela cabeça. Assim, como o próprio Daniel dissera, a cabeça expunha toda a força e imponência do império de Nabucodonosor, ou seja, a Babilônia. 
  • O peito e os braços (tronco) – O tronco da estátua possui dois braços, ou a nosso ver, dois impérios. Historicamente falando podemos considerar o império que conquistou a Babilônia em aproximadamente 538 a.C. O mesmo fora constituído  por uma aliança entre dois povos, os medos e os persas. Tais povos eram hábeis com as mãos, especialistas em trabalhos manuais e construção. Foram retratados pela prata por serem inferiores ao reinado Babilônico “de ouro”. 

  • Ventre – Após o império medo-persa emerge no cenário histórico a ascensão da Grécia. De povo totalmente hedonista, quer dizer, erotizado, voltado as coisas do prazer. Sensualidade esta retratada por um ventre. Tal parte da estátua também faz alusão a figura da Terra-mãe na fertilidade telúrica defendida pelos gregos e outros povos antigos, representada na mitologia grega por Afrodite que possuia um culto especial no templo de Corinto, onde praticava-se a prostituição religiosa, uma forma de culto a deusa. Expressando dessa forma a autosuficiencia mítica da mulher.  Eram retratados pelo bronze, inferior aos metais anteriores, por serem fracos no tangente militar, embora poderosos culturalmente.

  • Duas pernas longas – contituídas de ferro, representava no sonho de Nabucodonosor o império que mais tempo permaneceu no poder: Roma. Os membros inferiores ilustram a divisão do reino – Império Oriental e Ocidental. Também ao que alude a figura foi o mais próspero de todos e o que mais benefícios  trouxe aos governados, uma vez, qua criaram estradas e implementaram a navegação. Após este reinado nenhum outro se constituiu com tamanha força.

  • Pés com partes de ferro e partes de barro – esta figura do sonho  prefigura os dias atuais onde vários poderes (reinados) comandam diversas nações mas nenhuma com mão forte o suficiente para governar o mundo. Alguns fortes como ferro, outros frágeis como barro mantém-se em alianças para que se sustentem mas logo hão de ruir.

Posteriormente a essa imagem uma pedra surge ferindo a estátua. Mas antes da pedra outros eventos acontecerão, eventos aos quais Deus não anunciou a Nabucodonosor, mas revelou-lhes posteriormente a Daniel.
Ao analisar a última parte da estátua nota-se dez dedos nos pés representando dez reis, ou melhor, nações que segundo Daniel estabelecerão uma aliança com o Anticristo a fim de manter-se. 
Esse governante conseguirá até mesmo a paz entre Israel e a Palestina numa aliança de sete anos, mas na metade desse tempo o mesmo romperá o acordo e mostrará a sua face.


Com muitos ele fará uma aliança que durará uma semana. No meio da semana ele dará fim ao sacrifício e à oferta. E numa ala do templo será colocado o sacrilégio terrível, até que chegue sobre ele o fim que lhe está decretado”. (Dn. 9:27).

O período que é dado em Apocalipse por meses, em Daniel é dado por dias, onde cada dia prefigura um ano e, assim sendo na metade dos anos, ou seja, três anos e meio, o acordo será rompido e o povo de Deus perseguido.


Não deixem que ninguém os engane de modo algum. Antes daquele dia virá a apostasia e, então, será revelado o homem do pecado, o filho da perdição.

Este se opõe e se exalta acima de tudo o que se chama Deus ou é objeto de adoração, chegando até a assentar-se no santuário de Deus, proclamando que ele mesmo é Deus. (2 Tes. 2:3,4)

Quando as províncias mais ricas se sentirem seguras, ele as invadirá e realizará o que nem seus pais nem seus antepassados conseguiram: distribuirá despojos, saques e riquezas entre seus seguidores. Ele tramará a tomada de fortalezas, mas só por algum tempo.

O rei fará o que bem entender. Ele se exaltará e se engrandecerá acima de todos os deuses e dirá coisas jamais ouvidas contra o Deus dos deuses. Ele terá sucesso até que o tempo da ira se complete, pois o que foi decidido irá acontecer.

Ele não terá consideração pelos deuses dos seus antepassados nem pelo deus preferido das mulheres, nem por deus algum, mas se exaltará acima deles todos. (Dn. 11: 24, 36-37).

João em apocalipse (13: 1-7) já falava sobre o tempo do fim:

1 Vi uma besta que saía do mar. Tinha dez chifres e sete cabeças, com dez coroas, uma sobre cada chifre, e em cada cabeça um nome de blasfêmia.

2 A besta que vi era semelhante a um leopardo, mas tinha pés como os de urso e boca como a de leão. O dragão deu à besta o seu poder, o seu trono e grande autoridade.

3 Uma das cabeças da besta parecia ter sofrido um ferimento mortal, mas o ferimento mortal foi curado. Todo o mundo ficou maravilhado e seguiu a besta.

4 Adoraram o dragão, que tinha dado autoridade à besta, e também adoraram a besta, dizendo: “Quem é como a besta? Quem pode guerrear contra ela?”

5 À besta foi dada uma boca para falar palavras arrogantes e blasfemas, e lhe foi dada autoridade para agir durante quarenta e dois meses.

6 Ela abriu a boca para blasfemar contra Deus e amaldiçoar o seu nome e o seu tabernáculo, os que habitam nos céus.

7 Foi-lhe dado poder para guerrear contra os santos e vencê-los. Foi-lhe dada autoridade sobre toda tribo, povo, língua e nação.

8 Todos os habitantes da terra adorarão a besta, a saber, todos aqueles que não tiveram seus nomes escritos no livro da vida do Cordeiro.

Assim como na interpretação de Daniel os pés possuem 10 dedos representando dez governantes, João em apocalipse também fala de dez coroas aludindo à aliança que o Anticristo fará com 10 nações.
Em apocalipse o Anticristo apresenta-se veloz e astuto como um leopardo, forte e imponente como um urso e assim como o leão governa a selva  seu rugido percorre a mata, será esse de grande eloquência na fala, governando assim sobre toda a terra. E todo esse poder ser-lhe-á dado por Satanás.
Ele agirá por 42 meses, ou seja, três anos e meio, como anteriormente mencionado, afligindo os santos de Deus, perseguindo, matando e forçando a todos da face da terra que o adorem. Se aqueles dias não fossem abreviados, ninguém sobreviveria; mas, por causa dos eleitos, aqueles dias serão abreviados. (Matheus 24:22).

Como o próprio Nabucodonosor fez com os amigos de Daniel; Azarias, Misael e Ananias, forçando-os a adorar uma estátua de rei de reis (sua própria), assim também acontecerá nos tempos vindouros, onde o Anticristo fará com que todos o adorem, forçando todos a possuírem sua marca. E aqueles que negarem-se terão o mesmo destino dos amigos de Daniel, ou seja, serão dados à morte. Contudo Deus os arrebatará e prepará-los-ão para a grande batalha: o Armagedom.
Da mesma maneira como um quarto homem passeava na fornalha com eles há de acontecer à vinda do Rei dos reis, a pedra angular, o alfa e o ômega, a pedra cortada sem o auxílio de mãos que destruiu a imponente estátua do sonho de Nabucodonosor, ou seja, Jesus Cristo.

4 À medida que se aproximam dele, a pedra viva rejeitada pelos homens, mas escolhida por Deus e preciosa para ele ]

6 Pois assim é dito na Escritura:“Eis que ponho em Sião uma pedra angular,escolhida e preciosa,e aquele que nela confia jamais será envergonhado”.

7 Portanto, para vocês, os que crêem, esta pedra é preciosa; mas para os que não crêem,“a pedra que os construtores rejeitaram tornou-se a pedra angular”,

8 e, “pedra de tropeço e rocha que faz cair”.Os que não crêem tropeçam, porque desobedecem à mensagem; para o que também foram destinados.
( 1 Pe. 2.4,6-8)

 Logo após a pedra destruir a imagem, diz Daniel ao rei da Babilônia que a mesma tornou-se uma prodigiosa montanha que encheu toda a Terra. Ao ler atentamente Zacarias (14. 4-9) pode-se apreender melhor o significado dessa montanha que enche a Terra.

4Naquele dia os seus pés estarão sobre o monte das Oliveiras, a leste de Jerusalém, e o monte se dividirá ao meio, de leste a oeste, por um grande vale; metade do monte será removido para o norte, e a outra metade para o sul.

5 Vocês fugirão pelo meu vale entre os montes, pois ele se estenderá até Azel. Fugirão como fugiram do terremoto nos dias de Uzias, rei de Judá. Então o SENHOR, o meu Deus, virá com todos os seus santos.

7 Será um dia único, um dia que o SENHOR conhece, no qual não haverá separação entre dia e noite, porque, mesmo depois de anoitecer, haverá claridade.

9 O SENHOR será rei de toda a terra. Naquele dia haverá um só SENHOR e o seu nome será o único nome.

 Segundo as escrituras, o primeiro lugar da aparição de Jesus será onde o mesmo ascendeu aos céus, ou seja, no Monte das Oliveiras. Diz no capítulo 14 de Zacarias versículo 4, como pode-se observar acima que o Monte será rasgado, dividido ao meio. Esse evento fará com que todos os olhos estejam voltados para Israel e assim possam ver a glória de Deus.

Nesse momento Jesus reunirá o povo:

11 Vi os céus abertos e diante de mim um cavalo branco, cujo cavaleiro se chama Fiel e Verdadeiro. Ele julga e guerreia com justiça.

12 Seus olhos são como chamas de fogo, e em sua cabeça há muitas coroas e um nome que só ele conhece, e ninguém mais.

13 Está vestido com um manto tingido de sangue, e o seu nome é Palavra de Deus.

14 Os exércitos dos céus o seguiam, vestidos de linho fino, branco e puro, e montados em cavalos brancos.

15 De sua boca sai uma espada afiada, com a qual ferirá as nações. “Ele as governará com cetro de ferro.” Ele pisa o lagar do vinho do furor da ira do Deus todo-poderoso.

16 Em seu manto e em sua coxa está escrito este nome: REI DOS REIS E SENHOR DOS SENHORES.

19 Então vi a besta, os reis da terra e os seus exércitos reunidos para guerrearem contra aquele que está montado no cavalo e contra o seu exército.

20 Mas a besta foi presa, e com ela o falso profeta que havia realizado os sinais miraculosos em nome dela, com os quais ele havia enganado os que receberam a marca da besta e adoraram a imagem dela. Os dois foram lançados vivos no lago de fogo que arde com enxofre.

21 Os demais foram mortos com a espada que saía da boca daquele que está montado no cavalo. E todas as aves se fartaram com a carne deles.

 Após a derrota da besta, (a destruição de toda a estátua a partir dos pés), não mais haverá guerra. E começará o milênio de Deus. Onde Satanás nenhum mal poderá fazer aos homens. Por um tempo.

Ele julgará entre as nações e resolverá contendas de muitos povos. Eles farão de suas espadas arados, e de suas lanças, foices. Uma nação não mais pegará em armas para atacar outra nação, elas jamais tornarão a preparar-se para a guerra. (Is. 2.4)

A terra arrasada será cultivada; não permanecerá arrasada à vista de todos que passarem por ela.

Estes dirão: ‘Esta terra que estava arrasada tornou-se como o jardim do Éden; as cidades que jaziam em ruínas, arrasadas e destruídas, agora estão fortificadas e habitadas’. (Ez. 36. 34:35)

O lobo viverá com o cordeiro, o leopardo se deitará com o bode, o bezerro, com leão e o novilho gordo pastarão juntos e uma criança os guiará.

A vaca se alimentará com o urso,seus filhotes se deitarão juntos, e o leão comerá palha como o boi.

A criancinha brincará perto do esconderijo da cobra, a criança colocará a mão no ninho da víbora.

Ninguém fará nenhum mal, nem destruirá coisa alguma em todo o meu santo monte, pois a terra se encherá do conhecimento do Senhor como as águas cobrem o mar. (Is. 11.6-8).
            
Desta forma todos os escolhidos de Deus, indiferente de suas nacionalidades viverão em paz. Como o lobo vive com o cordeiro, os palestinos viverão com os israelitas, assim como o leopardo se deitará com o bode, os Albaneses e Sírios viverão em paz na Ioguslávia. Pois a estátua de terrível aspecto já não mais existirá e a frondosa montanha acima de todos reinará.


 Conclusão

Este ensaio sem maiores pretenções visou explicitar o método comparativo, enaltecendo sua importância no estudo da fenomenologia religiosa atual, abrangendo alguns dentre muitos arquétipos presentes, no que a Bíblia chama de Armagedom, sob a óptica do que foi revelado a Nabucodonosor. Muitas leituras podem ser feitas tanto do livro de Daniel quanto Apocalipse. Há estudiosos que defedem a vertente de que tais fatos já ocorreram. Que João em Apocalipse falava do Império Romano. Que o livro de Daniel teria sido escrito posteriormente para justificar fatos históricos. Enfim, muita gente fala muita coisa e cada qual interpreta os livros como os convém. O fato é que o imaginário apocalíptico do fim do mundo não é uma “novidade” judaica-cristã, sendo recorrente em diversas culturas. Caminhamos na ideia de que tanto Daniel como Apocalipse convergem de alguns eventos que já se iniciaram, estão ocorrendo e outros que ainda virão. Seja como for, nossa pretenção é a de apenas apresentar o método comparativo e não de defesa teóricas.

Logo, ao aplicar o método comparativo com diversos textos que abordam a mesma temática, mais proveito obteve-se, uma vez que pôde-se extrair deles uma significação mais abrangente. Pois embora cada texto pesquisado tenha narrativas diferentes, todos apontam para um ponto em comum: o juízo final de Deus sobre os homens. Podendo assim destacar os pontos de contato, pois em todos os textos percebe-se:

  1. Dez nações reunidas através de um pacto (aliança);
  2. Que a vinda de Cristo está cada dia mais próxima.
  3. Que a pedra angular destruirá todos os reinados de homens.
  4. Que haverá um grande evento geológico em que todos na terra verão a vinda de Cristo.
  5. Após um período de grande destruição haverá uma grande paz na terra.
  6. Já não mais existirá a luta de etnias pois todos viverão em paz.
Logo, a intertextualidade veio como uma complementariedade do texto base para uma maior abrangência do assunto. Assim pode-se dislumbrar várias vertentes sobre a vinda de Cristo e a salvação dos seus santos, ditas de maneiras diversas mas portadoras da mesma mensagem. E nesse sentido o método comparativo não só apreede melhor o sentido do texto base como preenche lacunas do mesmo através dos textos complementares.



BIBLIOGRAFIA

CARVALHAL, Tania Franco. Literatura comparada. 4. ed. Editora Ática. São Paulo: 2004.

ELIADE, Mircea. O Sagrado e o Profano: a essência das religiões. Martins Fontes. São Paulo:1995.

______________. Mito e Realidade. Editora Perspectiva. 3ª ed. São Paulo: 1991.

Internacional Biblie Society, NIV, Editora Vida, São Paulo: 2002.


INTERNET

Wikipedia


Dicionário